O 3-5-2 nunca foi um esquema tático muito popular no Brasil.


É mal-interpretado, exige adaptação de alguns jogadores brasileiros e desperta desconfiança de treinadores, imprensa e torcedores. Por isso, ele vive de surtos intermitentes, de acordo com uma equipe que utilize o sistema obter algum sucesso.
Um sinal dos contrastes é que foi o sistema de jogo do Basil em duas Copas do Mundo: no fiasco de 1990 e no título de 2002. Pois, hoje, o São Paulo é a melhor propaganda em favor desse sistema no Brasil.

Quando foi criado, na década de 1980, o 3-5-2 era uma resposta à escassez de equipes com três atacantes. A lógica era: se todos jogam com dois atacantes, é possível deixar apenas dois zagueiros no combate direto, um na sobra, e reforçar o meio-campo. Era uma forma de deixar os times mais ofensivos, com mais opções na armação e laterais com mais liberdade para o apoio. No Brasil, o 3-5-2 acabou visto como sinônimo de retranca, já que o simples fato de ter um líbero seria sinal de defensivismo. Pensamento que ficou reforçado com a má campanha da seleção na primeira vez que adotou o sistema, na Copa de 1990. O que também tinha algum sentido, pois os laterais, se não se adaptasse, direito à função de ala, continuariam atrás e a defesa ficaria com cinco integrantes. Depois disso, o 3-5-2 teve dois bons momentos. O primeiro, em 1992, com o surgimento do “Carrossel Caipira” do Mogi Mirim, um time bastante ofensivo que se valeu de contar com o trio Leto-Válber-Rivaldo. Por um pequeno momento, houve os que considerassem esse esquema tático válido, mas como foi utilizado apenas por uma equipe pequena, não teve grandes repercussões em médio prazo. O segundo surto do 3-5-2 foi mais consistente, com o Grêmio de Tite conquistando a Copa do Brasil em 2001. Nesse caso, já se via a vertente brasileira para o sistema. Ao invés de aproveitar o excesso de meias para tornar o time ofensivo, o ponto de partida era proteger a defesa. Como os laterais brasileiros já avançam naturalmente, a dupla de zaga normalmente acaba no mano-a-mano com a dupla de ataque adversária. Assim, coloca-se um terceiro zagueiro e admite-se que os laterais já não sabem o que são funções defensivas. Ou seja, resolve a carência de bons zagueiros ao proteger mais a defesa e aproveita melhor o talento e a volúpia ofensiva dos laterais brasileiros. O sucesso do Tricolor gaúcho foi o suficiente para o 3-5-2 entrar na moda. No Brasileirão daquele ano, vários técnicos resolveram adotar o esquema como se isso fosse sinônimo de modernidade. Felipão soube entender a virtude do sistema e o adotou na seleção brasileira na Copa de 2002. O problema é que não faltaram usos inadequados do esquema, sobretudo com times recuando seus volantes para compor a zaga, em uma improvisação desaconselhável (volante e zagueiro são funções de marcação, mas têm muitas diferenças). Isso, somado ao fato de Parreira defender ardorosamente o 4-4-2, o módulo com três zagueiros acabou caindo em um certo purgatório. Até aparecer esse São Paulo. Não é mérito apenas de Muricy, pois isso vem desde a época em que o técnico era Leão. O princípio é mais ou menos como o do Grêmio de Tite, só que com mais talentos à disposição. O trio de zaga dá uma certa garantia aos alas para avançarem. Para ajudar a proteger a defesa, o time conta com dois volantes que sabem sair jogando, o que garante qualidade ao meio campo. Falta um armador ao time, pois Danilo está longe de ser um grande meia de criação. Ainda assim, com Mineiro e Josué tendo qualidade suficiente para se aproximar do ataque e dois laterais que sabem desenvolver jogadas tanto pelas pontas quanto fechando para o meio, o time tem elementos ofensivos suficientes para sufocar a defesa adversária.

E aí está o segredo do 3-5-2 são-paulino. Ao invés de pensar no “3” de defesa como base do esquema, o time se construiu nas possibilidades que o “5” no meio-campo dá. Isso não significa que o 3-5-2 seja um sistema perfeito, mas fica evidente que ele poucas vezes não foi usado acertadamente no Brasil. Ubiratan Leal

Marley Macho


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